Tocantins, 18 de outubro de 2019 - Mira Jornal - 00:00

Saúde

Sem aval para plantio, mercado da maconha medicinal no país prevê R$ 4,7 bi por ano

29/09/2019 07h52

Projeção esbarra em falta de regulamentação da Anvisa

Na recepção, moças de jalecos brancos. Nos balcões, tubos de vidro
com líquidos coloridos, em alusão a um ambiente de laboratório científico.
Na plateia, empresários. Nada ali lembrava a estrela da noite: a maconha.


No palco, porém, uma frase entregava o objetivo do evento empresarial
realizado pelo Lide Futuro em agosto, em São Paulo, e patrocinado por
farmacêuticas voltadas à maconha medicinal

“Cannabusiness: um mercado bilionário”.
Sem uma legislação favorável ao plantio da maconha medicinal no Brasil e
mesmo diante da desaprovação do Planalto sobre a proposta da Anvisa (Agência
Nacional de Vigilância Sanitária) de regular o tema, há empresários otimistas e
já investindo neste setor no país

A estimativa de recursos a serem movimentados vai de R$ 1,1 bilhão a R$ 4,7
bilhões por ano, segundo estudo das empresas de dados do setor New
Frontier e Green Hub.

A projeção mais entusiasta, que representa um valor equivalente a 6,5% do
total do faturamento da indústria farmacêutica no país em 2017 (R$ 76
bilhões), está amparada numa estimativa de que o país tenha ao menos 3,9
milhões de pacientes que poderiam ser tratados com cannabis.

Desde 2014, pouco mais de 4.000 doentes foram autorizados pela Anvisa a
importar produtos feitos de canabinoides para o tratamento de patologias
como epilepsia, transtornos de ansiedade, depressão e esclerose múltipla. As
substâncias autorizadas são o canabidiol (CBD) e tetraidrocanabinol (THC).

A importação é um processo lento e caro. A autorização tem levado até três
meses e cada paciente gasta ao menos R$ 1.200 por mês. Até agora, só um
remédio foi registrado para ser vendido no país, o Mevatyl (spray), para
alívio de espasmos em pacientes com esclerose múltipla.

Há 40 pessoas e uma associação de pacientes de João Pessoa (Paraíba)
plantando Cannabis medicinal com autorização judicial

E há centenas de outras consumindo produtos do mercado
clandestino segundo a Folha apurou em grupos de pais nas
redes sociais.

“O Brasil possui grande potencial de mercado, não só para aplicações
médicas domésticas mas também para expandir sua exportação para países
incapazes de cultivar localmente”, diz Giadha Aguirre de Carcer, fundadora e
CEO da New Frontier Data.

Para o presidente da empresa canadense Verdemed, José Bacellar, o negócio
farmacêutico da Cannabis já existe e funciona no Brasil. Tanto que há um
remédio registrado 

“O que não está resolvido é o acesso à saúde. Para isso, tem que ter plantio,
extração de óleo e purificação para que os produtos se tornem baratos e acessíveis”, afirma.

A empresa resolveu arriscar e neste ano comprou um laboratório em Vargem
Grande Paulista (SP) por US$ 1 milhão. Por meio dele, deve registrar
remédios no Brasil assim que sair a nova regulamentação.

A empresa tem produção própria de Cannabis na Colômbia, de onde devem
sair por ano mil litros de óleo da planta. No Canadá, ela tem dois produtos
similares, o CDB 100 (para síndromes epiléticas) e o nabiximol (para
esclerose múltipla).

A meta da empresa é expandir os negócios na América Latina, com
investimentos de US$ 80 milhões até 2022. Metade disso depende de como
vai caminhar o Brasil na questão regulatória. “Se não tiver lei de plantio de
Cannabis, não tem onde gastar”, diz Bacellar.

A Entourage de pesquisa e produção de medicamentos
desenvolvidos a partir da Cannabis, é outro caso de empresa que não esperou
a regulamentação da Anvisa para fazer investimentos

Criada em 2015, em Valinhos (SP), já aportou US$ 6 milhões no
desenvolvimento de tecnologias de extração e preparo de matérias-primas
da Cannabis e em estudos de eficácia e toxicidade pré-clínicos (em animais).

“Tudo o que estamos fazendo hoje independe de uma nova regulamentação
da Anvisa. Estamos analisando eficácia, segurança e eficiência de produção
para baratear o custo”, diz Caio dos Santos Abreu, CEO da Entourage
Phytolab.

Segundo ele, uma parceria com a Unicamp (Universidade Estadual de
Campinas) gerou uma eficiência de extração 15 vezes maior do que a existente no mercado,
o que pode baratear em 15 vezes o tratamento final.

A proposta é investir em medicamentos para epilepsia e dores crônicas.
Abreu despertou para as possibilidade terapêuticas da Cannabis quando a
mãe teve câncer e usou produtos à base da planta para minimizar os efeitos
da quimioterapia.

Ele fez parceria com a canadense Canopy Growth, líder mundial do setor de
maconha medicinal, e obteve investimentos de US$ 700 mil. Um investidor
brasileiro aportou mais US$ 2 milhões. Hoje investe US$ 4 milhões para
plantar maconha no Uruguai.

A Canopy Growth, com ações na Bolsa de Nova York e avaliada em mais de R$
50 bilhões, abriu uma filial da Spectrum Therapeutics (sua divisão dedicada
aos produtos medicinais) em São Paulo em junho.

Inicialmente, pretende investir R$ 60 milhões no Brasil até 2020, mas poderá
reavaliar futuros investimentos a depender da nova regulação da Anvisa
segundo Jaime Ozi, gerente da filial brasileira.
Por ora, tem promovido cursos e atividades para médicos e profissionais da
saúde e associações de pacientes.

Embora o Brasil seja considerado promissor, é a Colômbia que abocanhou a
maior parte dos US$ 150 milhões da Canopy destinados à América Latina até
2020. Ficou com US$ 100 milhões para plantio e fabricação de produtos.

A empresa conta com atividades também no Chile e no Peru. No Canadá, há
11 estudos clínicos em andamento.
Como forma de simplificar o uso dos produtos à base de cannabis a empresa usa um código
de cores: o amarelo é puro CBD, o azul contém 50% CBD e 50% THC e o vermelho, 97% de THC.

“Apesar de não ser o que parte da indústria desejava, foca no que é mais
relevante: a ampliação do acesso a um produto de qualidade farmacêutica
para as famílias que dele dependem para a melhora de suas qualidades de
vida”, diz o CEO Martim Prado Mattos.

ENTENDA COMO FUNCIONA A CANNABIS MEDICINAL

A Cannabis produz mais de 80 tipos de canabinoides. Os que têm
propriedades medicinas mais conhecidas são o CBD (canabidiol) e o
THC (tetrahidrocanabinol)
Essas substâncias estão mais concentradas nas flores das plantas
fêmeas da espécie

DIFERENÇAS ENTRE CÂNHAMO E MACONHA

Cânhamo (em inglês hemp)
É uma planta alta e esguia, com poucas ramificações laterais. Tem alto teor
de CBD, sem efeito psicoativo, e no máximo 0,3% THC, a substância que
causa efeitos psicoativo. O caule e suas fibras são usadas na produção de
papel, tecidos, cordas, entre outros. Nos EUA e no Canadá, o óleo de
cânhamo é considerado um suplemento alimentar

Maconha
Tem baixa estatura, mais encorpada e com muitas flores —a parte da planta
que apresenta níveis bastante elevados de THC. O caule e as fibras não são
utilizados. Para maximizar os níveis de THC, ela é comumente cultivada em
um ambiente fechado para que as condições como luz, temperatura e
umidade possam ser controladas de perto

POTENCIAL TERAPÊUTICO DOS CANABINOIDES*
CBD
Crises epiléticas/convulsões
Autismo
Inflamações
Efeitos neuroprotetores
THC
Dor crônica
Espasticidade muscular
Náusea induzida por quimioterapia
Inflamações

* O CFM (Conselho Federal de Medicina) recomenda a prescrição apenas em casos de
epilepsia grave, refratária a tratamentos convencionais. Fontes: Campanha Repense,
associações de pacientes, estudos publicados
sua assinatura vale muito

(Da Folha de SP)


   

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  • Elisangela Fagundes
    15/10/19 12h18
    E a construção do supermercado?o lote que foi doado pela a prefeitura, que fez sua parte e os responsáveis? o rapaz...
  • José Professor
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  • José Professor
    27/09/19 08h30
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