Tocantins, 27 de maio de 2018 - Mira Jornal - 00:00

Política

Saída de Joaquim é recebida com alívio por políticos. Para analistas, Marina, Bolsonaro e Ciro são os maiores beneficiários

10/05/2018 12h45

José Cruz / Agência Brasil De saída: temperamento de Joaquim exibido nos tempos de toga é considerado por políticos inconciliável com a Presidência da República
O desembarque de Joaquim Barbosa da corrida presidencial, poucas semanas depois de ter se filiado ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), como o próprio ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) anunciou na terça-feira (8), causou alívio entre políticos. Em geral de forma reservada, parlamentares das mais diversas correntes políticas ponderaram que o temperamento difícil do ministro, que tem uma personalidade explosiva e demonstrou grandes dificuldades para se relacionar com autoridades e mesmo com advogados e jornalistas durante sua passagem pelo STF, era um fator de preocupação.

Os temores se deviam, de um lado, ao alto potencial eleitoral que Joaquim demonstrava nas pesquisas presidenciais e, de outro, aos problemas que um chefe de governo inábil pode criar em um país complexo como o Brasil, conforme indicam a ascensão e a queda dos ex-presidentes Fernando Collor e Dilma Rousseff, ambos considerados inaptos para a arte do diálogo.

Nem por isso o fantasma do presidente “pavio curto” foi afastado do cenário eleitoral. Para analistas políticos, um dos efeitos colaterais da retirada de cena de Joaquim Barbosa é o possível crescimento da candidatura da ex-ministra Marina Silva (Rede), que, embora alvo de muitas críticas, jamais teve sua imagem associada a um temperamento imprevisível. No entanto, também devem ser favorecidos, acreditam os analistas, dois candidatos com postura de confronto, o deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ) e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT).

Sem sequer ter iniciado atos de campanha, Joaquim apareceu com até 10% das intenções de voto na mais recente pesquisa Datafolha, bem acima de Ciro e de antigos pretendentes, como o ex-governador paulista Geraldo Alckmim (PSDB). Segundo uma importante liderança do Congresso, o seu ”desequilíbrio” representava uma séria ameaça à estabilização política do país.

“Aqui pra nós, eu vi a decisão dele com alívio. Como presidente do Supremo, Joaquim Barbosa chegou a dizer, em tom de ameaça, que teria muito a revelar. Imagine eleito presidente da República…”, declarou a liderança, sob condição de anonimato, referindo-se ao episódio em que o então ministro do STF, filiado ao PSB desde 6 de abril, sugeriu saber de muitos “podres” da República. Joaquim jamais cumpriu a ameaça de revelar o que quer que fosse, mas elevou a temperatura de um ambiente político já tenso, no qual a instabilidade tem sido apontada como um dos grandes entraves para a retomada dos investimentos produtivos e do desenvolvimento econômico e social.

A mesma liderança do Congresso lembrou à reportagem que Joaquim Barbosa deixou crescer por meses, tanto no PSB quando no próprio eleitorado, as expectativas sobre sua candidatura. Uma figura sem vínculo com a classe política tradicional – categoria extremamente rejeitada em nível nacional, com apontam todas as pesquisas de opinião –, mas que experimentou a atmosfera eleitoral sem sequer ter se dedicado à tarefa de construir pontes, em âmbito partidário, para viabilizar seu grupo político na corrida presidencial.

“Ele não tem equilíbrio [para a Presidência da República], não quer conversa com político. Graças a Deus, desistiu da eleição”, concluiu a fonte.

Mais contido na avaliação dos pontos vulneráveis de Joaquim Barbosa, o líder da minoria do Senado, Humberto Costa (PT-PE), concorda que Joaquim Barbosa acerta ao deixar o páreo, uma vez que não seria talhado para a lida político-eleitoral. “Era uma coisa esperada. Apesar de ser uma pessoa que se tornou uma celebridade, que tem uma respeitabilidade na sociedade, é alguém completamente fora da política, sem qualquer experiência administrativa. Sem qualquer perfil que permitisse administrar as contradições políticas que existem no Brasil. Acho que ele tomou uma decisão racional, inteligente”, arrematou o senador.

Em março, o comando petista recebeu pesquisas e análises de cenários que apontaram Joaquim Barbosa como o nome com mais potencial para frustrar as pretensões eleitorais dos demais concorrentes em 2018. Devido à sua trajetória de sacrifícios e à origem humilde, além do “perfil de centro-esquerda”, o ex-ministro figurou como o candidato com mais chances de atrair inclusive o eleitorado de um PT às voltas com a situação judicial do ex-presidente Lula, preso desde 7 de abril e que deverá ser impedido de se candidatura por causa da Lei da Ficha Limpa. O resultado da análise foi adiantado pela jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, em 23 de março.

Raiva e messianismo

A decisão de Joaquim pegou de surpresa a própria direção do PSB, que já articulava uma equipe de campanha para Joaquim, e revirou o xadrez pré-eleitoral a cinco meses do primeiro turno. A depender dos parlamentares e cientistas políticos ouvidos pela reportagem, a desistência acirrará ainda mais a disputa por votos em uma corrida presidencial marcada pela revolta popular contra corruptos dos mais diversos partidos. Nesse sentido, os pré-candidatos Bolsonaro e Ciro Gomes, nomes de “pavio curto” como Joaquim, podem lucrar com o vácuo eleitoral.

Identificado com o combate à corrupção principalmente por antipetistas, o relator do mensalão do PT no Supremo é lembrado pelos discursos duros contra desmandos na administração pública e pelos confrontos, por exemplo, com colegas de toga como Gilmar Mendes durante julgamentos de plenário. Com sua saída do pleito, deixa “órfãos” eleitores que nele viam uma voz contra a classe política desviada e, nesse sentido, pode favorecer candidatos de campos extremos, uma vez que o eleitorado votará “com raiva”. A opinião é do professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Kramer, para quem a eleição de 2018, “infelizmente”, será marcada pelo voto de revolta contra o status quo.

“A gente precisa entender que a cabeça do eleitor mediano, como gosta de dizer a Ciência Política, ao menos no caso do Brasil, não se orienta por referenciais ideológicos clássicos, de direita ou esquerda, por exemplo. O eleitor, nesta eleição, está se orientando – ou se desorientando – pela raiva. Raiva dos políticos, da política, dos partidos, do Congresso etc. É o grande combustível do debate político-eleitoral deste ano”, observa Paulo Kramer, acrescentando que o fenômeno é compreensível.

Para o professor da UnB, os “órfãos” da natimorta candidatura do PSB deixarão sequelas. “Nunca antes na história do Brasil, como dizia alguém que está preso agora, o povo brasileiro teve tanto acesso a uma massa, a um bombardeio tão grande de informações sobre os malfeitos dos políticos e autoridades em geral. Isso gera essa raiva, e essa raiva gera uma demanda por messianismo”, acrescentou o cientista político, referindo-se à frase que Lula usava com frequência. Assim, avalia Paulo Kramer, candidatos como Bolsonaro e Ciro, conhecidos por seus discursos radicais nos respectivos campos ideológicos, podem ser beneficiados com a desistência de Joaquim Barbosa.

“A maior parte desse espólio [de votos] vai se dirigir, digamos assim, para candidatos mais extremados. Mas sempre sobrará alguma coisas para aquelas candidaturas mais mornas, tépidas, como a de Marina Silva, de um lado, e a de Geraldo Alckmin, de outro”, completou o professor. 

   

Comentários (0)

  • Nenhum comentário publicado. Clique aqui para comentar.

Enquete

QUAL É A CHANCE DO GOVERNADOR ELEITO NA ELEIÇÃO SUPLEMENTAR DE JUNHO CONSEGUIR SE REELEGER NAS ELEIÇÕES DE OUTUBRO ?

Mais vídeosVideo Mira

O Coral do Reino surpreende o mundo no casamento do príncipe Harry e Meghan Markle

John Lennon (The Beatles) - Stand by me 

Comente

  • Carlos henrique
    21/05/18 16h06
    Engraçado essas mensagens de admiração AO thaller... parece coisa combinada!
  • Julio César
    21/05/18 11h00
    Mesma situação do e-mail anterior. Estamos com um técnico verificando o IP do equipamento de onde foi enviado e a...
  • Maria dos Santos
    20/05/18 11h50
    Maria dos Santos E-mail inexistente. Veja o que acontece. Teste e reenvie. Fizemos contato com Hotmail e foi...
VER TODOS OS COMENTÁRIOS

Jornal Impresso

Em Breve
2010 c Mira Jornal. Todos os direitos reservados.